quarta-feira, 11 de abril de 2012

Ética: devagar que o Santo é de barro (1/3)

 Eugen Pfister

Os padrões de pensamento dos sistemas morais – o bom modo de viver, a virtude, o caráter, o que é certo, o bem e o mal - são recorrentes e atemporais. Já os conteúdos e as práticas morais específicas são histórica e culturalmente determinados, ou seja, variam no tempo e espaço.

Aqui é imoral ou pecado comer carne bovina, lá a interdição recai sobre a carne suína. No Ocidente a bigamia é considerada imoral e ilegal, em muitos países do Oriente Médio a prática é moral e legal.

Já trabalhei em empresas que, preocupadas em evitar o favoritismo, não empregavam dois parentes de primeiro grau sob hipótese alguma. E também trabalhei em empresas em que a restrição era apenas quanto ao vínculo hierárquico. Tudo bem se fosse em áreas diferentes.

Esses e outros exemplos mostram que, afora o invólucro (certo x errado), não há valores constantes na história moral. Portanto, quando discursarmos sobre valores éticos convém respeitar o fato de que o relativismo cultural é a regra e não a exceção.

Isso, caro leitor, tem implicações. Listarei as principais.

1.      Prudência no tom e nas afirmações, pois, há riscos de confundirmos valores individuais ou grupais com valores universais.

2.      Ignorar a variabilidade dos sistemas morais pode, em si, ser antiético, além de intelectualmente irresponsável.

3.      Dar as costas para o mundo tal como ele é não é um procedimento eficaz para quem pretende mudá-lo ou aprimorá-lo à sua filosofia moral particular.

4.      Atropelar o mundo e a humanidade real em nome de um universo ideal paralelo é o grande atalho para toda sorte de arbitrariedades, feitas, é claro, em nome do bem.

5.      Ao propor soluções para problemas complexos seja o mais simples possível, porém, nunca simplório.

Definitivamente, a ética não é ciência exata. O objetivo da matemática, da biologia, da antropologia etc. é descrever o mundo. Já as teorias morais preocupam-se em definir como ele deveria ser.

Em princípio, não há nada de errado em pleitear mudanças. Empresas dinâmicas e bem sucedidas não se contentam apenas em adaptarem-se às condições vigentes, elas conseguem, também, criar um produto, um mercado e um consumidor para esse produto.

Contudo, desafiar a realidade é diferente de tentar suprimi-la. Um físico, decidido a abolir a lei da gravidade, seria internado ou faleceria testando a sua hipótese.

O objetivo pode estar nas nuvens, só que os agentes de mudanças devem manter os pés colados ao chão, sob a pena de perderem seus empregos. Essa é a principal diferença entre cientistas, gerentes e empreendedores versus o indivíduo idealista. Uns transformam o mundo respeitando as limitações naturais, sociais e humanas. Perseguem objetivos, não delírios ou pesadelos.

Com alguns moralistas dá-se o contrário. Eles migram com facilidade do mundo real para o tirânico mundo dos desejos e obsessões próprias. Se os fatos teimam em desmenti-los, danem-se os fatos.

O chute no traseiro do mundo dos fatos é um recurso psicológico típico de quem conta com um estoque reduzido de argumentos racionais. Acuados pela realidade e pela lógica, tornam-se irascíveis e, às vezes, violentos.

Dar um chute no traseiro do mundo dos fatos é um recurso defensivo típico de quem conta com um estoque reduzido de argumentos racionais. Acuado pela realidade e pela lógica, o jeito é apelar, tornando-se irascível e, às vezes, violento.

Exagero? Não creio. Observe que o moralista radical tem mais respostas que perguntas. Repudia as diferenças individuais, culturais e sociais de qualquer ordem por acreditar que só existe uma verdade e ele julga conhecê-la.

Assim, por fina ironia, almejando o bem, acaba criando desavenças, preconceitos, ódios, intolerância e, no limite, guerras santas, se é que isso é possível.

Em contrapartida, cientistas e gerentes eficazes têm mais perguntas que respostas e estas só são assumidas como verdadeiras quando apoiadas por evidências objetivas.

Portanto, uma agenda ética realista reconhece e respeita a existência de fatos objetivos. O moralista moderado e sábio também reconhece que eles existem independentes da sua vontade, pois, há realidades que são inerentes à natureza das coisas, inclusive da natureza humana.

Bom... No próximo encontro discorreremos acerca dos pequenos e decididos passos rumo a um sistema moral realista, bem como sobre as diferenças entre ética, moral, código de conduta e lei.

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